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Imagem editorial ilustrando O que é Retcon e como ele destruiu a continuidade dos heróis da DC
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O que é Retcon e como ele destruiu a continuidade dos heróis da DC

Entenda por que a DC Comics apaga décadas de história e como isso confunde quem tenta acompanhar filmes e gibis.

Ricardo Farias
Ricardo FariasRepórter de Celebridades e Virais5 min de leitura

Se você já assistiu a um filme do Batman e, no mês seguinte, viu o ator trocado, a origem mudada e até a personalidade do personagem alterada, sentiu na pele o efeito de um Retcon. O termo, que vem da junção de "retroactive continuity" (continuidade retroativa), é basicamente uma ferramenta narrativa que usa a mágica para mudar o que já foi estabelecido. Pode parecer inofensivo no papel, mas na prática, especialmente quando o assunto é o universo da DC Comics, virou uma verdadeira bomba atômica na paciência dos fãs e na coerência das histórias.

O problema não é apenas adaptar uma história para o cinema. É quando a editora decide que 30 anos de gibis, morte de pais e primeiros encontros "não aconteceram daquela forma" e joga tudo no lixo para vender uma nova revista número 1. Isso cria um muro invisível entre quem entra agora e quem acompanha o material há tempos, deixando todo mundo perdido.

A fábrica de confusão em Washington

Para entender a bagunça, precisamos voltar para 1985. A DC lançou "Crisis on Infinite Earths" (Crise nas Infinitas Terras), um evento que, supostamente, servia para organizar o universo. Antes disso, o Superman da Terra-2 podia ter uma idade diferente do Superman da Terra-1. Era caos. A solução? Fundir tudo em uma única linha do tempo. O problema é que, para fazer isso, eles tiveram que "retconar" vários casamentos, mortes e origens.

Isso virou vício. Em 2011, vieram os "Novos 52". A DC decidiu reiniciar todo o universo novamente. Personagens que eram veteranos viraram jovens iniciantes. Histórias de amor icônicas, como a do Superman e da Lois Lane, foram apagadas para que ele pudesse namorar a Mulher-Maravilha. O leitor que gastou R$ 40,00 em uma encadernada da semana anterior acordou no dia seguinte com um produto que, tecnicamente, "não existia mais" dentro do cânone oficial. Frustrante? Pouco.

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Não é à toa que muita gente desiste de tentar entender a cronologia oficial. Se você curte caçar raridades e cuidar da sua coleção, sabe que o valor sentimental de um gibi antigo pesa, mas quando a própria editorial diz que aquele fato é irrelevante, o investimento emocional vai embora. É como achar um Pokémon holográfico raro em sebo e descobrir que, na nova geração de jogos, aquele monstro nem existe mais.

O uso (e abuso) do Flashpoint

O exemplo clássico e negativo dessa prática é o arco "Flashpoint". O Flash (Barry Allen) volta no tempo para salvar a mãe. O resultado? Ele cria um universo alternativo distópico. Quando ele conserta tudo, a linha do tempo "reinicia", mas não volta a ser a mesma. Esse evento serviu de desculpa para os "Novos 52" que citei.

Barry Allen, o herói que deveria ser rápido, acabou sendo o responsável por deixar tudo lento e confuso. As relações de amizade entre a Liga da Justiça, que foram construídas durante décadas, sumiram. O Batman e o Superman, que eram grandes amigos e confiantes um no outro, passaram a se tratar com desconfiança extrema na nova linha. Tudo o que você aprendeu sobre a dinâmica desses personagens foi invalidado em uma página.

Para quem está chegando agora, assistindo aos filmes ou séries na HBO Max, isso é um pesadelo. Você vê o Ben Affleck como um Batman velho e cansado, e depois aparece o Robert Pattinson como um jovem iniciante, sem nenhuma explicação clara de como os dois convivem (se é que convivem) na mesma "multiverso". A DC tenta usar o Retcon como uma muleta para consertar roteiros ruins ou filmes que bombaram na bilheteria, em vez de planejar uma história sólida de antemão.

O impacto no seu bolso e na sua tela

Essa falta de cuidado afeta diretamente o entretenimento que você consome hoje. Quando a continuidade é desrespeitada, os filmes perdem peso emocional. Por que eu vou me importar com a morte de um personagem se sei que, daqui a três anos, um "novo Retcon" vai trazer ele de volta, jovem e sem cicatrizes, como se nada tivesse acontecido?

Isso também prejudica a experiência em jogos e plataformas digitais. Adaptar quadrinhos complexos para jogos de console ou handhelds é um desafio e tanto. Se até os roteiristas originais se perdem, imagine quem vai adaptar isso para o Steam Deck ou ASUS ROG Ally. Sem uma base sólida, os games acabam seguindo suas próprias linhas do tempo alternativas, criando mais confusão.

Muitos fãs preferem migrar para outras mídias onde a continuidade é respeitada ou, pelo menos, tem um começo, meio e fim definidos. A sensação é de que a editorial está correndo atrás do prejuízo, tentando apagar incêndios com gasolina. Em vez de criar histórias novas e interessantes, eles reescrevem as antigas de qualquer jeito.

O fã é quem paga a conta

No fim das contas, o grande prejudicado dessa manobra retcon constante é a confiança do público. Quem gosta de se vestir de personagem e vai até uma Comic Con sabe que o cosplay é sobre celebrar a história daquele herói. Imagine ter passado meses montando uma cosplay em EVA que aguenta 10 horas dentro da Comic Con, baseada na versão clássica da Arqueira Verde, para descobrir que na continuidade atual ela nem existe mais ou é um homem chamado Green Arrow. É desanimador.

A especificidade de uma boa narrativa morre quando o "Deus Ex Machina" do apagão geral é acionado. O que a DC parece esquecer é que a gente não só consome o produto final, mas a jornada. Quando você apaga a jornada, o personagem vira apenas um desenho bonito em uma capa glossy, sem alma e sem consequências.

Para o espectador comum, a mensagem é triste: não se apegue, porque amanhã tudo pode mudar. E para quem tenta lucrar com a venda de coleções ou manter um site sobre o tema, é uma dor de cabeça constante explicar por que o fato A contradiz o fato B, mas ambos são "canônicos".

Aprendizado duro aqui: a consistência vale mais do que o reset fácil. A Marvel também errou, mas a DC transformou o Retcon em política de gestão, e a complexidade desnecessária afastou leitores que só queriam uma boa história de herói sem precisar de um doutorado em cronologia multiversal.

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