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Mito ou Realidade: influenciadores ganham mais vendendo curso digital do que fazendo publicidade

Descubra se o mercado de infoprodutos realmente supera os ganhos com publicidade tradicional no Brasil de 2026.

Lucas Peixoto
Lucas PeixotoEditor de Cultura Pop e Games7 min de leitura

Todo dia, rolando o feed, a gente vê a mesma narrativa ensaiada: o influenciador postando a foto da varanda gourmet, o cheque do primeiro milhão (sim, ainda usam essa estética em 2026) e o convite para você "sair do rat race" comprando um método. Ao mesmo tempo, esses mesmos perfis estão estampados em campanhas de banco, cerveja ou app deDelivery. Fica a dúvida que não quer calar: onde está o ouro real? O influenciador ganha mais cobrando para falar mal de um filme ou vendendo o segredo para "viver da internet"?

A resposta curta, se você quer ouvir a verdade crua, é: depende de quão bem você administra a dor de cabeça. Não existe hierarquia fixa, existe um matemática de ROI (Retorno sobre Investimento) que muda conforme o tamanho da base e a ética de quem vende. O mercado de publicidade no Brasil se estabilizou, mas o de infoprodutos virou uma selva de leis e caça à pirataria.

O cheque da grande marca é sempre maior que a comissão?

Essa é a crença mais antiga do livro. A lógica diz que uma multinacional pagando um "publi" de R$ 50 mil para três Stories é mais seguro e rentável do que tentar vender 200 cursos de R$ 297. O erro aqui é confundir receita bruta com margem líquida.

Um contrato de brand deal com uma grande varejista, digamos uma Magazine ou Netshoes, envolve uma agência intermediária que cobra sua fatia (geralmente 20%), impostos sobre serviço e a obrigação de entregar materiais com qualidade de estúdio. O influenciador recebe o valor, sim, mas é um evento único. Chegou, gastou. Já no modelo de infoproduto, a curva é oposta. Vender um curso digital exige tráfego pago — e o CPM (Custo por Mil Impressões) no Meta Ads subiu assustadoramente neste ano.

Em 2026, para colocar um curso de emagrecimento ou "rich mindset" na frente de pessoas qualificadas, você gasta facilmente R$ 15 a R$ 20 por lead qualificado. Se a sua taxa de conversão de lead para venda não for impecável, o custo de aquisição de cliente (CAC) devora o lucro. Então, não é que o publi é menor, é que o publi é "dinheiro limpo" sem risco de chargeback ou de devolução de compra desesperada no final do mês. Porém, quem construiu uma lista de compradores fiéis ( aqueles 1% da audiência que de fato pagam) fatura muito mais recorrentemente do que esperando o telefoninho da marca.

A escalabilidade do curso digital é infinita

Esse é o maior discurso vendido pelos gurus do marketing digital: "crie uma vez, venda para sempre". Se eu te disser que isso é mentira, você vai duvidar, mas olhe os bastidores. A "escalabilidade infinita" esconde um problema logístico brutal: o suporte e a retenção.

Quando você vende um curso, você não está apenas vendindo um PDF ou um vídeo de aulas gravadas em 2019. Você está vendendo a expectativa de resultado. No Brasil de 2026, o Procon e as plataformas de checkout como Kiwify e Hotmart estão com a mão pesada. O prazo de garantia legal de 7 dias virou uma calamidade para produtos de baixa qualidade. Se o seu curso não entregar valor imediato, o reembolso chega a bater 30%.

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Imagine que você faça uma "brand deal" com um iogurte. Você posta, recebe e dorme tranquilo. Não vai ter ninguém no seu Direct perguntando por que o iogurte não curou a insônia. Já no curso digital, você cria uma relação de tutoria. Em 2026, o custo de um suporte de qualidade, muitas vezes terceirizado para CZars ou similares, pesa no orçamento. A escalabilidade mora justamente aí: para vender 10 mil unidades, você precisa de uma estrutura de atendimento que consome boa parte da margem de lucro, algo que o "influenciador viajando o mundo" raramente mostra nos Stories.

Micro e nanoinfluenciadores vivem de publis ou cursos?

Existe uma mudança de cenário interessante que vale a pena destacar. Antigamente, só quem tinha 1 milhão de seguidores vendia curso. Hoje, o nicho reinou absoluto. Um influenciador de 50 mil seguidores, mas extremamente especializado em, por exemplo, ranqueamento de sites locais ou corretagem de imóveis em Florianópolis, pode faturar muito mais com um produto próprio do que tentando caçar "publis" de R$ 300 reais que marcas locais pagam.

As grandes marcas de FMCG (Fast-Moving Consumer Goods) como Nestlé ou P&G focam seu orçamento em grandes nomes ou em massificação de micros, pagando valores irrisórios por "pauta". Para quem tem audiência pequena e engajada, o modelo de afiliado ou produtor digital é a única saída para profissionalizar a renda. Eu acompanhei de perto casos como o crescimento de uma ex-BBB do zero ao milhão de seguidores em 2 meses que, apesar do número gigante, viu no lançamento de um produto digital uma forma de monetizar aquela audiência rápida que a publicidade tradicional não consegue absorver tão rápido.

O problema é que, para esse micro, o erro pode ser fatal. Se ele queimar a imagem vendendo um produto ruim, ele não tem mais o porto seguro da marca grande para se apoiar. A recuperação de reputação é lenta e custosa.

O risco de imagem: vender produto é mais perigoso?

Sem sombra de dúvidas. Quando você faz um publi para uma streaming de filmes, no pior dos casos, o público diz que o filme é ruim. Quando você vende um curso de "Copywriting Ilimitado" e o aluno aplica a técnica e não ganha dinheiro, a culpa cai inteiramente em você. A accountability (responsabilidade) do criador de conteúdo aumentou exponencialmente.

Vimos no mercado vários casos de 'cancelamento' que revertidos aumentaram o faturamento do artista, mas com infoprodutos a dinâmica é outra. A "controvérsia" no ensino digital raramente gera curiosidade positiva; gera desconfiança de pirâmide financeira. O conteúdo de influenciador caminhou para uma exigência de transparência. Hoje, se você não coloca o Earnings Disclaimer (aviso de resultados) no seu site e no material, além de tomar multa da ANATEL e de órgãos de defesa do consumidor, você perde a confiança da sua base.

A publicidade, por sua vez, é regulamentada pelo CONAR. É chato, burocrático, mas é seguro. Você não precisa provar que o shampoo fez o cabelo da vizinha crescer 10 cm, apenas não pode mentir sobre isso. No curso digital, a promessa implícita de transformação de vida é a alavanca de venda, e carregar esse peso psicológico não é para qualquer um.

A questão tributária e o "sangue sugado" por plataformas

Muitos acham que vender curso é lucro líquido porque "não tem custo de produto". Isso é ignorar a realidade brasileira. Se você trabalha como Pessoa Jurídica (PJ), uma estrutura de infoproduto pode te jogar em faixas de imposto altíssimas se você não estiver enquadrado na categoria certa de serviços. Fora que as plataformas de checkout cobram comissões que variam de 8,99% a quase 15%, somadas às taxas de antecipação de recebível se você quiser o dinheiro "pra ontem".

Compare isso com um contrato direto de publicidade. Você emite a nota fiscal, a marca paga, desconta o imposto e fica o saldo. É limpo. No modelo digital, você tem o custo da plataforma de membros (como Kajabi, Teachable ou até o próprio Hotmart Club), o custo de e-mail marketing (ActiveCampaign ou ConvertKit custam caro quando a lista passa de 50 mil contatos) e o custeio de ferramentas de automação.

O célebre "ganhe enquanto dorme" só funciona se você tiver um exército de robôs custando dinheiro trabalhando para você enquanto você cochila. Caso contrário, você vai acordar com a notificação de que o funil quebrou e a cartolina de vendas parou.

Então, qual caminho vale mais a pena em 2026?

Não existe uma resposta única, mas existe uma estratégia de maturidade. O influenciador inteligente hoje não escolhe um ou outro, ele usa o publi para validar a autoridade e o curso para monetizar a autoridade. O erro fatal é tentar vender curso sem ter a autoridade validada pelo mercado (o que gera produtos ruins) ou depender 100% de publis em um mercado onde algoritmos mudam da noite para o dia.

O dinheiro público (marcas) paga as contas e dá status. O dinheiro privado (vendas diretas) constrói patrimônio e liberdade geográfica. A maioria dos criadores que sustentam o lifestyle "ricos" por mais de 3 anos no Brasil usa a publicidade como "funil de topo" para atrair gente para o ecossistema deles. Se você acha que o grande criador de conteúdo te empurra um produto porque ele acredita cegamente nele, pense de novo: é ele financiando a própria liberdade de não ter que aceitar o primeiro contrato de publi que aparece na caixa de entrada.

Se você está pensando em entrar nesse jogo, esqueça a promessa de fácil. O curso digital exige produção editorial contínua, atualização constante e estômago forte para lidar com a insatisfação do consumidor moderno. A publicidade exige negociação fria e capacidade de se vender como mídia. Ambos pagam bem, mas nenhum deles paga para quem é apenas "famoso por ser famoso". O dinheiro migrou para quem resolve problema ou entrega audiência qualificada. O resto é ruído.

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